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Comunidade quilombola de Arapoti reivindica direito às terras onde viveram seus ancestrais

[caption id="attachment_13111" align="alignleft" width="800"]AGRONEGÓCIO-X-HISTÓRIA-01 A fazenda de mais de 300 anos abrigou várias gerações de escravos[/caption] O agronegócio movimenta milhões de reais todos os anos no Brasil e envolve as atividades de exportações que mais lucram no país. Mas além de terra e adubo, o que mais tem ficado embaixo dos arados e sobre o que os tratores vêm passado? Para os agricultores pode ser apenas um preparo para uma terra boa, mas para muitos descendentes de quilombolas e indígenas essas terras guardam suas histórias e o passado de seus ancestrais. Em razão da importância que essas raízes têm, a promotoria de Arapoti promoveu uma audiência pública na última sexta-feira (22) para discutir a possibilidade de encaminhar alguns segmentos ao Ministério Público, dentre os quais a desapropriação das terras da Fazenda Boa Vista III, onde viviam os ascendentes da família quilombola Xavier, que atualmente moram em Arapoti e em várias outras cidades da região. Quem presidiu a reunião, juntamente com o promotor Eduardo Henrique Germano, foi o deputado estadual Péricles de Melo (PT), o advogado representando os donos da Fazenda, Arnaldo Conceição Júnior, e o presidente da câmara de vereadores de Arapoti, Wesley Carneiro Ulrich, o Lelo (PSD). A fazenda tem 4 mil hectares, e atualmente está sendo utilizada para o plantio, mas sua história se estende por mais de 300 anos. “A propriedade é produtiva e esse é o bônus do dono, mas como ônus, tem que proteger e preservar a área que é patrimônio histórico e cultural protegido por lei” comentou o promotor Eduardo. A audiência reuniu cerca de 150 pessoas, em sua maioria da família Xavier, na sala do júri do fórum de Arapoti. A reinvindicação era que, inicialmente, a atual proprietária, Agropecuária Morro Chato, permitisse a entrada dos remanescentes para visitas aos túmulos que ali se encontram, pois alegaram que esse direito lhes foi tirado através da implantação de uma guarita com guardas que não permitiam a entrada. O grupo que se intitula Associação dos Remanescentes Quilombolas - Família Xavier estava representado pelo presidente do Instituto Sorriso Negro, professor e advogado José Luiz Teixeira, que articulou a reunião e discursou em nome da comunidade afro descendente. “Tudo para o negro é mais difícil, mas estamos lutando para que haja tolerância e respeito com a nossa história. O negro e negra perder terra é uma coisa, agora ser expulso de sua terra é outra, não podemos ficar à mercê dessa luta.” [caption id="attachment_13112" align="alignleft" width="300"]AGRONEGÓCIO-X-HISTÓRIA-02 Professor José Luiz representando o direito e a voz do negro[/caption] Em réplica ao reclame de que não poderiam estar entrando na fazenda, o advogado da Morro Chato afirmou que estaria providenciando para que os guardas não mais impedissem a entrada do grupo. Mas em relação à reapropriação, alegou que a compra da fazenda foi legítima e que cabia aos processos legais o fato ocorrer ou não. Após as discussões entre o grupo e a mesa serem encerradas, ficou estabelecido os seguintes segmentos: o pedido de tombamento da casa e do cemitério como patrimônio histórico em nível estadual, o acesso irrestrito das famílias para visitarem o imóvel e o pedido de análise para reapropriação das terras pelos descendentes da família Xavier. A presidente da APP de Ponta Grossa (Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná), Vera Rosi de Morais, também esteve presente na plateia e durante a audiência discursou: “Estamos há 70 anos tentando garantir que as pessoas tenham direito e valorização da sua etnia, muito já melhorou na parte física, mas a violência psicológica continua a mesma dos séculos passados”. Em entrevista à Folha Extra, o integrante da mesa adjunta, vereador Claudinei José Moreira, Todynho (DEM), ressaltou a importância de implantações de datas como o dia da Consciência Negra que se tornou feriado na cidade de Arapoti, diante de projetos da câmara. “Os negros fazem parte da história de Arapoti, bem como os outros povos que aqui se instalaram, essas famílias devem ser homenageadas por tudo que passaram sendo escravos de grandes fazendas, como a Boa Vista”, afirma. VANESSA LOPES Arapoti