Especiais

Desempregados, pais encaram coleta de latinha para manter filha na universidade

(Foto: Gilmara Silva/Folha Extra)

Boa parte dos adolescentes tem o sonho de ingressar em uma faculdade, no entanto, muitos encontram obstáculos durante a trajetória em busca do diploma, porém há aqueles que não se deixam abater por dificuldades e conquistam o sonho de ingressar no Ensino Superior através das faculdades estaduais e federais.

Famílias que não tem condições financeiras encontram em oportunidades como o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), a chance de garantir o futuro profissional dos filhos, como foi o caso da estudante Alessandra Maria Reis. Natural de São José da Boa Vista, a jovem conquistou uma vaga para estudar na UFPR (Universidade Federal do Paraná), mas infelizmente logo no primeiro ano do curso, sua família foi pega por um imprevisto, o desemprego.

Ao ficarem sem trabalho, os pais Elcio Luiz Reis e Ana Maria do Nascimento encontraram na coleta de latinhas, a oportunidade de angariar dinheiro para manter a filha em Curitiba, polo da universidade, no qual Alessandra estuda Agronomia em tempo integral.

Mesmo em meio as adversidades, estas não fizeram que a família desistisse do sonho da filha que, desde criança, já possuía gosto pela leitura e por adquirir conhecimento. Durante o período de estudos, os pais chegaram a enviar apenas R$ 30 para a filha, dinheiro suado que, apesar de parecer pouco, se tornou exorbitante diante da luta e da força de vontade em realizar o sonho da futura engenheira agrônoma.

“Claro que o dinheiro que a gente conseguia com a venda das latinhas não era suficiente para pagar o aluguel da casa, ou então de comprar as coisas, mas nesse período os vizinhos nos ajudaram muito e a gente continuou na luta. Logo, através de serviços temporários fomos conseguindo quitar as dívidas de aluguel. Meu marido chegou a pensar em falar para nossa filha desistir, mas com muita força de vontade, a Alessandra nunca cogitou largar a universidade”, explica.

 

Após o desemprego

Mesmo após Elcio conseguir um emprego como caminhoneiro, o casal não parou de coletar latinhas, sempre que o marido tem uma folga, ajuda Ana na coleta realizada na praça municipal. O dinheiro das viagens que Elcio faz serve para manter as despesas de casa e as da filha, que conseguiu se hospedar em uma república com custo de alimentação e moradia bem abaixo dos pagos no início da ida à Capital.

A jovem de 20 anos afirma que sua força de vontade vem do incentivo dos pais para ela estudar. “Lembro que no início meus pais comentaram que a vida em Curitiba ia ser difícil, mas sempre me deram forças para eu não desistir, além disso, sempre procurei formas do meu custo de vida ser mais barato para facilitar para eles”, conta.

“Eu fiquei bem orgulhosa quando minha mãe começou a catar latinhas, porque eu consegui ver na prática, o quanto eles se esforçavam e se esforçam para eu poder estudar e conseguir manter meus estudos, desde mais nova eu nunca trabalhei, eles nunca exigiram isso, meu foco sempre foi estudar e se formar para depois trabalhar, agradeço muito a eles por isso”, afirma.

 

Desde a infância

Desde muito pequena, Ana conta que Alessandra já demonstrava interesse pela leitura, até que, ao terminar o Ensino Médio, prestou o Enem e ingressou no Ensino Superior.

“Eu tenho muito orgulho da Alessandra, ela é muito esforçada sempre leu bastante, tinha vez que ela ia à biblioteca e pegava um monte de livro, eu achava que ela não ia conseguir ler, mas ela sempre dava conta. Eu nunca paguei nenhum curso para ela, a aprovação na universidade foi um mérito totalmente dela”, afirma Ana.

 

Outros objetivos

Atualmente o casal já não depende exclusivamente da coleta latinhas para manter a filha em Curitiba, no entanto continuam na atividade para ganhar um dinheiro extra.

Recentemente, com o dinheiro de três meses coletando latinhas, Ana comprou uma bicicleta para seu neto e agora está juntando os materiais para reverter o reciclável em dinheiro, visitar os pais em Minas Gerais e levar os dois netos para eles conhecerem os bisavós.