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Jovens do Norte Pioneiro saem do Brasil para realizar sonho de cursar medicina

Conheça pontos favoráveis e as experiências de estudantes que optaram por estudar fora do Brasil e como é o processo para revalidar o diploma para atuar no país
Universidade Nacional de Rosário, na Argentina, é uma das mais procuradas pelos paranaenses para cursar medicina na América do Sul (Foto: Reprodução/UNR)

Um dos maiores sonhos do brasileiro, que faz parte até das brincadeiras de criança, é crescer e se tornar um médico. Mas, na prática, realizar este sonho não é algo tão fácil, pois requer muita dedicação, esforço e horas de estudo.

No Brasil, o vestibular para um curso de medicina como o da USP (Universidade de São Paulo) de 2018, chegou a ter 105 candidatos por vaga. Já na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR), o preço médio da mensalidade do curso gira na casa dos R$ 8 mil.

Nesse contexto, acabou surgindo uma forma para que muitos estudantes que não conseguem uma vaga nos disputados vestibulares das universidades públicas, ou não tem condições financeiras de pagar o valor da mensalidade em uma instituição particular, conseguirem realizar seu sonho, estudar no exterior.

Países da América Latina como Argentina, Bolívia, Chile e Paraguai, acabaram se tornando uma opção para estes estudantes. A alta do Dólar fez com que a moeda destes países acabasse se desvalorizando com relação ao Real e, ainda, o espanhol é um idioma considerado fácil de ser compreendido pelos brasileiros. Outro ponto favorável é a oportunidade de viver uma nova experiência cultural.

Apesar de parecer uma alternativa animadora, os estudantes devem ficar atentos a alguns pontos cruciais, como a diferença nos métodos de ensino e grade curricular, o que faz com que estes estudantes, quando retornem ao Brasil, tenham que passar por um processo de validação do diploma para receber o registro do Conselho Regional de Medicina brasileiro.

 

EXPERIÊNCIA FORA DO PAÍS                                

 

 

Roberta Gonçalves, de 18, formou-se no ensino médio no município de Wenceslau Braz. A jovem falou um pouco sobre os motivos que a levaram escolher estudar fora do país. “Eu faço medicina na Universidade Del Pacífico, no Paraguai e estou cursando o segundo ano. Para mim foi um escape entre cursinhos e vestibulares e, como já conhecia pessoas que estudam aqui, acabei buscando conhecer mais e acabei tomando esta decisão de vir para cá”, comentou.

Com relação a adaptação e rotina das aulas, Roberta relatou não ter tido muita dificuldade em se adaptar. “No começo é meio diferente, mas como aqui na faculdade há muitos brasileiros, acabei me acostumando rápido. A rotina de estudo são aulas integrais, o que acaba sendo bem puxado. Já a grade curricular, as principais matérias são iguais às do Brasil, mas algumas acabam divergindo um pouco”, explicou.

Gustavo Chueire Caldas, estudante da Universidade Nacional de Rosário, na Argentina, relacionou sua escolha de estudar fora do país por causa da concorrência que existe no Brasil. “O que me trouxe a Argentina foi a forma de ingressar na faculdade. Aqui não tem a exigência de um exame de ingresso como o vestibular e ainda assim as universidades são de boa qualidade. Fora isso, também tem a experiência de viver em outro país, outra cultura e idioma”, destacou.

Com relação aos custos, Roberta comentou que paga cerca de 2 milhões de Guaranis como mensalidade do curso, o que equivale na cotação atual a R$ 1.169 por mês. “O custo é algo que realmente compensa muito”, comenta a estudante.

Já sobre o custo de vida, Gustavo destacou que em alguns pontos o valor pode ser um pouco mais caro do que no Brasil. “O custo de vida aqui, quanto ao preço, é bem semelhante ao Brasil. Moradia aqui é mais cara, pois uma Kitnet aqui tem o valor de um apartamento maior no Brasil”, explicou.

Sobre a discriminação por estudar fora do país, Gustavo explicou que isso é algo real. “Existe muita discriminação e preconceito. Quando você fala que vai fazer uma faculdade na Argentina, Bolívia ou Paraguai as pessoas falam que não presta. Mas, na minha opinião, independentemente de ser no Brasil ou fora, você tem que estudar para ser um bom médico”, destacou.

Quando questionada sobre se há diferenças entre o ensino no Brasil e no Exterior, Roberta explicou que não acredita que um lugar seja melhor que o outro e sabe que tem que se preparar pra o teste do Revalida. “Não acredito que uma ou outra seja melhor, até porque temos que provar depois através da prova que estamos aptos a trabalhar e digamos que num mesmo “nível” que os médicos que fizeram no Brasil”, comentou.

 

REVALIDA                                                                

 

A Folha Extra entrevistou Luiz Ernesto Pujol, secretário geral do Conselho Geral de Medicina do Paraná (CRM/PR), que falou um pouco sobre como funciona o processo de validação do diploma para que os alunos que fizeram o curso de medicina no exterior tem que fazer.

“Todos os médicos tem que obter o registro no CRM para poder exercer a profissão no Brasil. Quando um estudante se forma em um país do exterior, é necessário que ele realize a prova do Revalida e atinja uma nota mínima. Assim, podemos comprovar seu nível de conhecimento para que ele desenvolva suas funções de maneira eficaz”, destaca.

De acordo com Pujol, o processo é necessário para que haja um padrão no desempenho das funções dos médicos. “Infelizmente, não existe um padrão internacional das matérias ministradas nos cursos de medicina, ou seja, a grade curricular depende de cada universidade. Além disso, muitas vezes o diploma apresentado pelo aluno só diz que ele é médico, mas não mostra a grade de matérias, média de notas, frequência e quantos anos ele levou para concluir o curso. Nisso tudo, nós temos o risco de acabar registrando gente que não é médico”.

O secretário ainda destaca que não há nenhum tipo de preconceito ou restrição com os alunos que se formaram fora do país, mas que o processo é necessário para garantir a qualidade dos serviços prestados pelos médicos e a segurança dos pacientes.

 

“Nós não somos contra o estudante fazer seu curso fora do país, mas ele tem que ser submetido a um teste para trabalhar aqui, assim como os estudantes das faculdades brasileiras também realizam provas para testar seus conhecimentos. Existem faculdades que se negam a repassar dados dos diplomas para gente, então é necessário o processo para comprovar o conhecimento do médico. Se ele passar na prova, ele é registrado no CRM normalmente”, explicou.

 

Com relação a aplicação da prova, Pujol destaca que todo processo é feito junto a uma instituição brasileira ligada ao Revalida, sendo o teste regulamentado pelo Inep. “A prova é completamente adequada pra verificação de qualificação destes médicos. Os estudantes são submetidos a uma prova teórica e também a uma prova prática de testes clínicos, se ele for aprovado ele é registrado no CRM, se não for ele não recebe o registro”, comentou.

Por fim, o secretário ainda destacou como funciona o processo de avaliação de estudantes de medicina que fazem o curso em universidades brasileiras. “Aqui os alunos estudam seis anos e fazem uma prova ao final do segundo ano sobre as matérias básicas, no quarto para o quinto ano fazem uma nova prova, e quando termina o curso a prova final. Isso é realizado independente da faculdade ser pública ou privada. Caso reprove em alguma prova, a escola obrigatoriamente tem que refazer o ensinamento na área que ele não passou e só assim ele se forma”, destacou.