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Alemoa

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Potencial que pode “naufragar” sem investimentos

O distrito da Alemoa, em Siqueira Campos, apresenta um grande potencial turístico, porém sofre com falta de infraestrutura e investimentos públicos.

Antes de começar a falar do lugar, a série de hoje começa pela estrada de acesso, que no caso específico da Alemoa, distrito de Siqueira Campos, é um caso completamente à parte.

A rodovia sai do bairro do Alecrim, na rodovia que leva de Siqueira Campos a Salto do Itararé, e tem uma pavimentação “indefinida”, mesclado trechos asfaltados, trechos de terra e trechos de muita, mas de muita pedra. Pedra o suficiente pra fazer a suspensão de qualquer jeep willys pedir arrego.

Enfim, já próximo da Alemoa se percebe um grande número de ranchos e chácaras margeando a estrada. A rodovia que leva ao distrito se “transforma” também na rua principal do local, que leva direto à prainha da Alemoa, que, embora pequena, é muito bem arrumada e oferece uma bela vista para quem chega até ali.

Durante as fotos na prainha, duas pessoas chegam ao local: pai, Pedro Xavier da Silva, e filho, Erick Xavier da Silva. A família atualmente mora no litoral paulista, porém já morou na Alemoa, onde ainda tem uma casa, e conhece bem o Norte Pioneiro.

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Pedro diz que visitou o lugar pela primeira vez há quase 50 anos, quando as águas da represa de Chavantes ainda nem haviam chegado à Alemoa (a represa, que é artificial, foi criada na década de 70 para a construção de usinas hidrelétricas e inundou 1/3 da área de Carlópolis, além de terras de municípios vizinhos, obviamente bem indenizados para tal).

“Aqui não tinha nada disso, era um rio só e uma estrada que ia direto para Carlópolis, depois que veio a represa”, relembra Pedro. “E eu vou ser sincero, na minha opinião a água isolou a Alemoa. Antes ela era caminho e o movimento aqui era grande, mas grande mesmo. Para se ter uma ideia, existiam duas farmácias, e hoje não tem nenhuma. Eu acredito que se a represa não tivesse sido criada a Alemoa seria um município e hoje teria tudo pra ser maior até que Salto do Itararé”, projeta. “Agora, já que veio a água, então vamos nos adaptar a isso e explorar, mas isso infelizmente não acontece. Aqui tem um potencial muito bom, mas inexplorado, a começar pela estrada. Eu sempre falo que vão asfaltar até a lua e não vão asfaltar até aqui”, reclama.

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Outro a reclamar, e não só do potencial turístico inexplorado, mas como de toda infraestrutura local, além de problemas sociais (que não são tão poucos) é o pedreiro e sitiante Luis Carlos de Ávila. “Falta tudo aqui, e se tem alguma coisa é porque o povo é esforçado e trabalhador. Prefeito e vereador nunca fizeram nada por nós”, afirma. “São diversas casas sendo construídas aqui, as pessoas estão investindo, mas ainda falta muita coisa. O posto de saúde é ruim, policiamento é fraco, e o movimento de turistas tem caído”, reclama, ainda lembrando os problemas com adolescentes, envolvendo pequenos furtos e o consumo de álcool e drogas.

Observando as dezenas de terrenos baldios dentro do distrito e mais tudo que foi visto e ouvido, a única conclusão plausível é que a possibilidade de se tornar um pólo turístico pode naufragar, caso medidas definitivas não sejam tomadas logo em favor da Alemoa.

Por LUCAS ALEIXO

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Aldeia de Pinhalzinho

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Os avançados índios do Norte Pioneiro

Aldeia Indígena do Pinhalzinho, no município de Tomazina, é dona de uma riqueza cultural única, que tem todos os princípios indígenas aliados à modernidade do homem branco.

A última expedição rumo ao interior do Norte Pioneiro tem a equipe da Folha Extra indo até a Aldeia Indígena do Pinhalzinho, em Tomazina, nesta que é a “cereja do bolo” da série de reportagens.

Embora a aldeia faça parte do município de Tomazina, fica próxima à sede do município de Guapirama. E logo na chegada já se nota que, ainda que seja uma aldeia guarani, em nada lembra essas tribos mostradas exaustivamente na televisão, com pessoas nuas pintadas e dançando na frente de um amontoado de ocas.

Ali existe uma rica mistura entre modernidade e tradições indígenas, que resultam em uma sociedade democrática, ainda composta por cacique e pagé, mas que toma decisões coletivas sempre visando a manutenção da cultura indígena e o bem estar do grupo, porém com casas com TV a cabo, internet e carros.

Neste ambiente as 160 pessoas da aldeia vivem com uma qualidade de vida superior aos moradores dos distritos visitados na série. Com poder direto de participação nas decisões dos rumos a serem tomados, ensino fundamental de qualidade e um posto de saúde bem melhor que a maioria dos postos de saúde que existem em toda a região, os índios impressionam pelo progresso e avanço que conquistaram, contrariando diversos preconceitos contra sua cultura.

O passeio pela aldeia é conduzido por Reginaldo Alves, filho do cacique local e participante de movimentos indígenas de todo Brasil, que conta em detalhes o dia a dia da aldeia.

A primeira parada é no posto de saúde e já chama a atenção – especialmente depois de conhecer tantos problemas relacionados a esse tipo de estabelecimento durante as expedições desta série. Ali uma equipe médica composta por médico, enfermeira padrão, auxiliar de enfermagem e agente de saúde trabalham diariamente para manter em dia a saúde dos moradores dali.

O posto ainda conta com um consultório odontológico e remédios em quantidade suficiente para atender a demanda da aldeia. Vale lembrar que, exceto o agente de saúde, toda a equipe que trabalha no posto de saúde é composta por “brancos”.

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Já na escola Yvy Porã, que em português quer dizer Terra Boa, e é o nome indígena também da própria aldeia, embora os professores não sejam índios, a direção da instituição é de Jeferson Gabriel Domingues, índio e formado em história.

Ali tanto Reginaldo quanto Jeferson destacam a importância de uma educação que ensine as matérias do ensino regular (até porque a escola é estadual), já que muitos índios saem da aldeia para fazer o ensino médio e até o faculdade em outros lugares, porém não abrem mão de instruir os alunos na cultura indígena.

“A gente luta para que a educação aqui seja de qualidade, mas que também priorize as questões culturais indígenas, para que além do conhecimento a gente forme uma identidade cultural nos jovens da aldeia”, afirma Jeferson.

E essa relação, especialmente dos jovens, entre os índios e o “mundo branco” é uma das grandes preocupações do diretor da escola. “Nós temos um lema aqui que é: posso ter tudo o que você tem, sem deixar de ser aquilo que eu sou”.

Agora a luta é para que a escola passe a ter também ensino médio. “Estamos lutando para que a gente ofereça o ensino médio também, queremos um sistema educacional indígena. Isso sem dúvida seria muito importante para manutenção dos nossos costumes”, explica Reginaldo.

A liderança indígena também conta que a aldeia está tentando começar a cultivar produtos orgânicos, começando pela horta na própria escola. Além disso, Reginaldo destaca que na aldeia existe uma variedade grande de frutas e plantas medicinais, usadas regularmente na rotina dos moradores locais.

Já os 300 alqueires de terra de posse da aldeia têm uso variado. São plantações, como arroz e feijão, pastagem e mata fechada. Claro que uma parte disso é de uso coletivo da aldeia. Mas aí entra uma das reclamações dos índios: de acordo com eles, mais de 1000 alqueires foram tomados por posseiros. “Tem fazendas inteiras dentro de terras indígenas e infelizmente é muito difícil de recuperar isso, pra não dizer impossível”, lamenta Reginaldo.

Mas questões legais à parte, após uma boa volta pela aldeia chega-se à casa do pagé, que é o guia espiritual da aldeia. E aqui, antes de aprofundar nas crenças dos índios, vale o destaque para o “papel social” das lideranças e o respeito tido por eles. “O pagé tem a função de orientar espiritualmente, aconselhar, dar os nomes indígenas para as crianças. Diferente do cacique, que cuida da parte política e burocrática, mas sempre ouvindo as lideranças e os conselhos, já que temos conselhos de saúde, de educação, e por aí vai”, explica Reginaldo, mostrando uma organização social exemplar e democrática, e que atua assim não só na teoria, mas na prática também.

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Chegando à residência de José da Silva, o pagé, a equipe de reportagem é bem recepcionada por ele e pela esposa, que explicam a ordem dos rituais e a importância da fé. Em uma longa conversa, o pagé conta sobre seu ofício e inclusive leva a equipe de reportagem até a casa de reza, uma espécie de igreja, feita toda em sapé. Entre os rituais mais comuns estão o pedido por chuvas e bênçãos para crianças. “Quando vai ter um ritual tem que se preparar. Alguns chegam a durar até nove dias. Então tem uma alimentação diferenciada, não pode dormir junto com a esposa. Tem que estar purificado para conseguir”.

E quando questionados se os pedidos por chuvas, por exemplo, funcionam, os índios são unânimes em dizer sim. “A gente pede com fé, e dentro de até três dias chove, não tem erro”, explica o pagé.

Apesar das crenças indígenas se manterem fortes, dentro da aldeia existem índios católicos e evangélicos, provando que há liberdade de escolha. “Ninguém é obrigado a nada. Cada um é livre para seguir a religião que quiser”, detalhe Reginaldo.

A visita termina com a equipe de reportagem levando uma ótima impressão de lugar, fazendo ter a convicção que chamar moradores de locais subdesenvolvidos de índios é um erro grotesco, já que a Aldeia do Pinhalzinho prova que os índios, em diversos aspectos do convívio coletivo e formação cultural, estão bem a frente dos brancos. E no Norte Pioneiro, uma região ainda com sérias carências primárias, os índios mostram ser uma das poucas partes que de fato evoluíram com o passar dos anos.

Por LUCAS ALEIXO

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