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Ensino deficitário faz alunos chegarem à faculdade sem conhecimentos básicos

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Pense em uma escola pública, agora responda se você considera a formação dos alunos sendo de qualidade nesta instituição que você pensou.

Se o seu conceito desta escola passou longe de “excelente”, saiba que esta é uma realidade e não somente uma opinião isolada. Na última edição da série PÚBLICA x PRIVADA, a Folha Extra aborda a origem das dificuldades enfrentadas pela maioria dos estudantes de escola pública que chegam ao Ensino Superior no Brasil.

No curso de Direito, o professor é um mediador de conhecimento, o mérito, em geral, é do próprio aluno que se dedica e coloca nos estudos todo seu empenho, porém como fazê-lo sem ter tido o amparo necessário para, ao menos, entender aquilo que se lê.

Com base em alguns relatos de diretores que afirmam receber alunos que chegam ao ensino superior sem ao menos saber interpretar, é necessário fazer uma análise mais abrangente para explicar porque este aluno está saindo do Ensino Médio com tanta deficiência na aprendizagem .

Primeiro é importante frisar que a justificativa de baixos investimentos, estatisticamente, não pode ser usada como argumento. Em um levantamento publicado pela Gazeta do Povo no ano passado, um novo relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que o Brasil já investe acima da média dos países membros da OCDE: aqui, mais de 16,2% dos recursos públicos vão para o setor, colocando a terra do verde e amarelo acima de países como Coreia do Sul, Suíça, Dinamarca e Noruega.

Agora como explicar a enorme defasagem de conteúdo com a qual os estudantes brasileiros saem atualmente do Ensino Médio? Para tais questionamentos, a Folha Extra entrevistou o renomado professor e filósofo Oswaldo Giacoia Júnior, natural de Ribeirão Claro, formado em Direito pela Universidade de São Paulo, doutor em Filosofia pela Universidade Livre de Berlin, cursou pós-doutorado na Universidade de Viena e Universidade de Lecce.

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Sobre a formação deficitária que o ensino público básico proporciona ao aluno, Giacoia afirmou ser uma questão a ser tratada de maneira cidadã. “A sociedade precisa passar a cobrar qualidade desde as bases da unidade, desde os municípios, para que a escola pública seja objeto central da preocupação, cobrando a canalização do máximo de recursos possíveis para promover ensino de excelência”, afirma.

Questionado sobre o papel fundamental do professor no aprendizado do aluno, o estudioso e professor na USP e Unicamp enfatiza que é preciso acreditar no que se faz. “A atividade docente foi tão degradada e banalizada, que os próprios profissionais que a executam tendem à ver como algo não compensatório. A carreira de professor desprestigiada e pouco atraente, faz com que alguns atuantes não reconheçam a importância da docência e a tendência desse fenômeno, é fazer dessa profissão a opção que restou, criando um efeito em cascata que traz consequências nefastas para a formação de gerações”.

 

Onde Está a Excelência?

Diferente do ensino básico e médio público, o nível de qualidade das universidades públicas brasileiras, é reconhecido mundialmente. Mas por que a base do conhecimento é tratada com tanto descaso? Sem apontar um ou outro motivo como único responsável por essa distorção, Giacoia citou uma das razões pela qual existe tanta disparidade entre os parâmetros de qualidade dentro da educação.

“Na universidade pública não há preocupação, nem tampouco remuneração referente apenas ao tempo que se passa em sala de aula, mas também a realização de pesquisas e atividades de formação, acompanhando trabalho em regimes de orientação e tutela. Isso significa que o salário do professor de universidade pública não se mede pelo tempo que ele fica em sala de aula. Agora, se você tiver um contrato de 40 aulas semanais e essas 40 horas são dentro de sala de aula, quando este professor vai realizar uma pesquisa, orientar um trabalho cientifico, se atualizar?”, explica Giacoia.

Constatando o que já foi registrado, em todos os comparativos feitos pela Folha Extra, é visível que a UENP (Universidade Estadual do Norte do Paraná) se sobressai às particulares da região, não sendo uma realidade exclusiva do Norte Pioneiro, mas o grau de excelência das universidades públicas é reluzente em todo país.

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Privilégio de alguns, a gratuidade e qualidade no ensino superior resultam em uma combinação que está ao alcance de poucos, justamente porque o ensino nas bases não oportuniza ao aluno de escola pública competir de igual para igual com estudantes que tiveram acesso à um ensino peculiar.

A conclusão é que este não é o país que o brasileiro quer. Investimentos altíssimos que não são convertidos em qualidade e castigam os sonhos de quem não pode pagar.

Professor e filósofo Oswaldo Giacoia Júnior, natural de Ribeirão Claro, explanou sobre a defasagem de conteúdo com a qual os estudantes brasileiros saem atualmente do Ensino Médio

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Além das estatísticas, vidas interrompidas e famílias abaladas

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O médico infectologista Maurício Naoto Saheki, da Fiocruz
Lina com o marido, Rodrigo Apolloni, e o irmão Maurício com a esposa Danielle Marotti Saheki. Foto: arquivo da família.

Enquanto estava em coma, a dona de casa Diva Bandeira de Melo Gonçalves, de 58 anos, sofreu perdas irreparáveis: sua mãe e uma de suas irmãs morreram. Residentes em Campina Grande do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba, as três mulheres contraíram coronavírus e tiveram que ser hospitalizadas às pressas. Silvanira Bandeira de Melo, 84 anos, e Zenaide Bandeira Santos, 64 anos, morreram no mesmo dia (13 de maio). Diva soube das mortes quase duas semanas depois, quando deixava o hospital.

Silvanira e Zenaide estão entre as 334 vidas perdidas no Paraná por causa da Covid-19, segundo balanço da Secretaria Estadual da Saúde divulgado na segunda-feira, 15 de junho. No Brasil, a doença já contaminou quase 900 mil pessoas e causou mais de 43 mil mortes. Esses números colocaram o país como a segunda nação do mundo onde o coronavírus fez mais mortos e infectados.

Silvanira, no aniversário de 83 anos. Ao lado dela, de branco, está Zenaide. Diva é a mulher de óculos e blusa rosa. Foto: arquivo da família.

Silvanira, no aniversário de 83 anos. Ao lado dela, de branco, está Zenaide. Diva é a mulher de óculos e blusa rosa. Foto: arquivo da família.

Vazio

Os efeitos da pandemia de coronavírus no país preocupam a população de modo geral, mas se tornam realmente assustadores quando as vítimas, sobretudo fatais, são pessoas próximas. A professora Karin Jociele de Melo Gonçalves, filha de Diva, conta que ainda é difícil acreditar em tudo o que aconteceu com a família dela, que mora numa comunidade pouco habitada. “Vivemos num bairro tranquilo, com poucos moradores. As pessoas aqui geralmente envelhecem, chegam aos 80, 90 anos. Não estamos acostumados a perder duas pessoas assim e ver outras ficando doentes (ao todo, seis pessoas da família contraíram o coronavírus) e, no caso de minha mãe, até correndo risco de morte. Em um mês, a gente viu tudo desandando, as pessoas já não entendiam mais nada, foi muito rápido. De repente, já estavam as três na UTI, morreram as duas e não sabíamos se minha mãe sobreviveria”.

Karin conta que família dela é muito unida e ficou extremamente abalada. “Na verdade, isso arrasou a nossa vida. Eu acho que vai levar muito tempo para amenizar todo esse sofrimento. Minha mãe está sofrendo muito, pois era difícil passar um dia em que não convivia com minha tia e minha avó.” Ela considera que muitas pessoas ainda não têm a devida dimensão da gravidade da pandemia de Covid-19. “As pessoas acham que essa doença não é tão grave, que é só uma gripezinha, mas, dependendo do organismo, a pessoa pode morrer, como aconteceu com minha avó e minha tia. Eu faço  questão de contar o que aconteceu com minha família exatamente por isso, para que quem saiba da nossa história possa se prevenir, se conscientizar de que isso não é brincadeira. A gente se julga protegido, acha que adotando cuidados estará livre. Eu nunca imaginei que isso pudesse acontecer com minha família, mas infelizmente aconteceu.”

Bondade que fará falta

Muitas pessoas ainda acreditam que o coronavírus pode ter efeitos graves apenas em quem já passou dos 60 anos. Os óbitos confirmados mostram, porém, que isso não é verdade. Pessoas mais jovens, com ou sem histórico de doenças, também podem ser afetadas, com consequência fatal.

O médico infectologista Maurício Naoto Saheki, da Fiocruz e do Instituto de Infectologia São Sebastião, no Rio de Janeiro, com familiares no Paraná, foi uma dessas pessoas. Ele morreu no início de maio na capital fluminense, após ficar 12 dias internado. Sua irmã, a professora e empreendedora Lina Saheki, moradora de Curitiba, conta que, em uma conversa com amigos infectologistas, ele chegou a falar sobre a possibilidade de morrer como vítima da Covid-19 – até porque essa realidade é muito presente no cotidiano desses profissionais. “Porém, ele disse que não tinha medo de morrer, que não teve filhos, nem deixou de realizar muitos dos seus sonhos. Tinha apenas o desejo de que a esposa ficasse bem, mas que não deixaria desejos por realizar”, conta Lina.

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O médico também havia conversado com os familiares sobre os riscos e pediu que, caso ficasse doente, não fossem visitá-lo, até porque isso não seria viável, já que não há visitas para pacientes de Covid-19. Pediu também que, caso falecesse, ninguém fosse ao rito funerário, realizado com vítimas de coronavírus de forma rápida e em caixão lacrado. De fato, isso acabou acontecendo, mas porque a família não conseguiu chegar a tempo para o velório e o enterro. “Foi tudo muito rápido: em um dia, parecia ser só uma gripezinha que iria passar; três dias depois, ele foi entubado na UTI e, doze dias após a internação, ele faleceu. Durante a internação, não conseguimos nem falar com ele, porque ele não tinha forças para falar. Não pudemos nos despedir porque ele morava no Rio e nós em Curitiba e não conseguiríamos chegar a tempo por causa da pandemia. Meus pais não puderam se despedir do filho de 41 anos que deu a vida nessa luta. Os dois, mas especialmente minha mãe, não conseguem processar bem a ideia de não ter podido se despedir do filho. Ela não se conforma de não ter conseguido, como mãe, cumprir essa última missão. Se já é extremamente difícil a ideia de filhos partirem antes dos pais, a cena do sofrimento diário de uma mãe que não pôde se despedir do filho é particularmente dolorosa.”

Sobre as mudanças na vida da família, Lina é enfática: “A nossa vida não mudou, ela acabou. A vida tal qual conhecíamos, as nossas próprias identidades, elas foram destruídas. A vida dos meus pais, a minha, do meu irmão caçula e da minha cunhada, a vida como a concebíamos, não existe mais. Não só aquela vida não existe mais, mas a nossa própria identidade está tendo que ser reconstruída.” Apesar de toda a tristeza, ela diz que, nos últimos dias, a família também teve momentos de beleza e de intensa comoção. “O que nos ajuda a conferir sentido a tudo isso é a percepção de que ele era amado, de que ele permanece amado. Só o amor pode nos salvar desta dor abissal. Mas não somente o nosso amor, é a corrente de amor que foi se desvelando e nos envolvendo após a sua morte.”

Posição do MPPR

É considerando essas estatísticas, mas especialmente os dramas reais de cada uma das vítimas e familiares, que o Ministério Público do Paraná defende a manutenção, ainda, do isolamento social como medida necessária para conter a propagação do coronavírus. Tal posicionamento é respaldado em pareceres da Organização Mundial de Saúde e da comunidade científica nacional e internacional.

Seguindo esse entendimento, desde o acirramento da pandemia, o MPPR tem atuado para que as regras de isolamento sejam seguidas nos 399 municípios do Paraná e, mais recentemente, para que qualquer flexibilização seja amparada em avaliações preliminares das autoridades sanitárias. Esse trabalho inclui atuações individuais dos promotores de Justiça em suas comarcas, com o encaminhamento de recomendações e o ajuizamento de ações, quando necessário, e ocorre também mediante iniciativas de articulação da Procuradoria-Geral de Justiça, com a participação, principalmente, do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça (Caop) de Proteção à Saúde Pública. Na semana passada, como exemplo, a PGJ enviou ofício ao Governo do Estado propondo a revisão dos critérios que levaram à flexibilização do isolamento social em todo o Paraná. No documento, o procurador-geral de Justiça, Gilberto Giacoia, ressalta que o “Ministério Público do Paraná tem clareza dos dramáticos efeitos econômicos, ora incidentes, que não se pode ignorar, e os que se projetam por vir, fruto da grave expansão planetária da doença”. Pondera, porém, que os respeito à vida deve prevalecer, e por isso as medidas para evitar a propagação da doença precisam ser reforçadas e considera que “democraticamente, em movimento coordenado entre os entes federativos, os governos e os aparatos de financiamento e controle monetário são e serão capazes de enfrentá-los (os efeitos econômicos)”.

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Mensagem do Procurador-Geral de Justiça

Omnis cellula ex cellula, toda célula origina-se de outra célula. Esse axioma, que vem da biologia, lança, notadamente na presente quadra da história da humanidade, luzes à ideia de que venceremos, após o drama que se nos abate por um flagelo quase sem precedentes.

É a afirmação do significado de que seres vivos formados por células, assim descobertas sob inspiração da depois construída teoria celular, e, portanto, da constatação de que uma célula só pode surgir de outra preexistente, nos leva à dimensão da dignidade humana, percepção que nos privilegia enquanto seres vivos independentes e capazes de superar toda forma de exploração e opressão por nossa própria determinação coletiva ou social, transpondo desafios à existência terrena.

Observamos que a propagação do contágio que hoje experimentamos no mundo todo parte do ataque de organismos acelulares que, porém, dependem das células para se reproduzirem, vale dizer, necessitam da vida delas para seu metabolismo.

Essa imagem pode bem nos remeter àqueles que exploram a vida humana, que dela se utilizam como recurso ou instrumento para funcionamento de seus próprios interesses, sugando energia e força em favor de si próprio, às vezes até mesmo matando-as aos poucos e impiedosamente.

Percebe-se, pois, que esse mecanismo, mesmo em meio à tragédia da pandemia, é fundamental para compreendermos melhor a vida e valorizar a dignidade das pessoas. Para nos realizarmos e nos defendermos, mais que unidades meramente morfológicas e funcionais, mas sim também e principalmente como seres sociais e estruturais a serviço de uma sociedade mais humana e justa, evitando divisões e sectarismos que nos fragilizam e nos vulneram.

Acreditemos que, muito mais que números, prevalecerão nomes, carinhos, empatias, gestos de solidariedade, enfim, histórias de vida que compuseram e compõem a nossa teia social de forma indelével. Não é a morte que vai apagá-las, nem agora nem nunca.

O Ministério Público permanecerá atento e vigilante às suas atribuições constitucionais em favor da vida e da saúde das pessoas às quais incumbe intransigentemente defender.

Lembremo-nos, com Carlos Drummond de Andrade, que a cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade. Gilberto Giacoia 

 

Assessoria de Comunicação MPPR

 

 

 

 

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