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Sem preparação necessária, acadêmicos que chegam ao curso de Direito passam por “nivelamento”

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Por causa social, carreira jurídica ou defensoria, o fato é que o curso de Direito está na moda. Uma escolha com grandes oportunidades para o mercado de trabalho e carreiras, que tem atraído os formandos do Ensino Médio.

Vindos de todas as classes sociais, muitos jovens e adultos almejam o título de advogado, mas qual o perfil desses acadêmicos? Este é o tema de hoje na série Públicas X Privadas.

Em uma pesquisa feita pela Folha Extra em turmas do Ensino Médio particular e público, foi constado que 70% dos 40 alunos desejam cursar Direito, porém a perspectiva de onde será realizado o curso toma rumos diferentes nas duas realidades.

O contraste é gritante, principalmente quando os estudantes são questionados sobre a preparação que recebem.

No colégio particular, 100% dos alunos acredita que o ensino é suficiente para inseri-los em uma universidade. Já no colégio público, nenhum dos alunos julgou o ensino suficiente para disputar uma vaga na faculdade.

Quando o assunto abordado é o ingresso em instituições públicas, a perspectiva é ainda mais arrasadora, de 18 alunos do colégio público, apenas 6 irão tentar os vestibulares em universidades públicas, enquanto que, no Ensino Médio privado, 21 dos 22 alunos pretendem e se sentem aptos a brigar por uma vaga gratuita.

Estas informações atestam o perfil do aluno que universidade pública e privada tem recebido, visto que os diretores das três maiores instituições privadas que ofertam Direito da região, Uniesp de Santo Antônio da Platina, Universidade Brasil de Ibaiti e Fati/Fajar de Jaguariaíva recebem, em sua maioria, alunos de escolas públicas, fator justificado pela baixa concorrência e maior facilidade para o ingresso.

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De acordo com os diretores, boa parte destes alunos chegam imaturos, tanto nas responsabilidades de estudo, quanto no próprio conteúdo, que é defasado, como explica a diretora da Universidade Brasil, pólo de Ibaiti, que atualmente conta com 350 alunos de Direito.

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“Os alunos, em sua maior parte chegam imaturos, saindo do Ensino Médio, eles vêm para o ensino superior bem jovens, apresentando déficit em literaturas, interpretação de texto, comunicação e expressão, matemática, enfim, dificuldades para que superamos com o programa de nivelamento no primeiro ano, trabalho que dá resultado já no final do primeiro bimestre, quando fazem as primeiras provas, tomam um choque de realidade e vão amadurecendo”, afirma Edmilsa Bonin Braga.

Na esfera pública, os que ocupam as vagas de ampla concorrência na única instituição pública de Direito na região, UENP (Universidade Estadual do Norte do Paraná),  são cerca de 85% oriundos de escolas privadas, salvo os alunos do primeiro ano, que já gozam do sistema de cotas ofertando metade das vagas à cotistas socioraciais e socioeconômicos (aplicado na instituição pela primeira vez neste ano).

Quando o conhecimento é posto a prova, o diretor Luiz Fernando Kazmierczak, garante que os alunos chegam na UENP com preparação suficiente para receberem os conteúdos sem necessidade de uma “revisão”. “Imaturidade só nas questões da idade ou responsabilidade, no entanto, na parte de conteúdos eles vêm muito preparados, quesito que já está implícito quando esse aluno vence a concorrência e entra numa universidade pública”, afirma.

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Estudo e trabaho

Outro diferencial entre o acadêmico de Direito da realidade pública e privada é o tempo dedicado ao estudo que, neste curso em particular precisa ser constante. Em sua maioria (dado atestado pelos diretores entrevistados), os alunos da instituição privada trabalham o dia todo e estudam a noite, muitas vezes saem direto do serviço rumo à faculdade.

“Nosso aluno precisa de toda base possível, principalmente pedagógica, porque o que ele aprende aqui, somado ao que ele estuda no tempo disponível é tudo que ele vai levar para o mercado de trabalho depois”, explica a diretora Edmilsa.

Por outro lado, o perfil do alunado da universidade pública, possibilita mais tempo para se dedicar aos estudos, visto que, os que trabalham, estão encaixados em estágios com jornada reduzida. Com perfis diferentes, instituições de Ensino Superior da região seguem formando cerca de 300 bacharéis em Direito todo ano, mas com que qualidade? O nível de ensino necessário para sanar tantas lacunas tem sido suficiente?

Não deixe de conferir “A Qualidade dos cursos de Direito” Não deixe de conferir “A Qualidade dos cursos de Direito” na próxima edição.

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Ensino deficitário faz alunos chegarem à faculdade sem conhecimentos básicos

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Pense em uma escola pública, agora responda se você considera a formação dos alunos sendo de qualidade nesta instituição que você pensou.

Se o seu conceito desta escola passou longe de “excelente”, saiba que esta é uma realidade e não somente uma opinião isolada. Na última edição da série PÚBLICA x PRIVADA, a Folha Extra aborda a origem das dificuldades enfrentadas pela maioria dos estudantes de escola pública que chegam ao Ensino Superior no Brasil.

No curso de Direito, o professor é um mediador de conhecimento, o mérito, em geral, é do próprio aluno que se dedica e coloca nos estudos todo seu empenho, porém como fazê-lo sem ter tido o amparo necessário para, ao menos, entender aquilo que se lê.

Com base em alguns relatos de diretores que afirmam receber alunos que chegam ao ensino superior sem ao menos saber interpretar, é necessário fazer uma análise mais abrangente para explicar porque este aluno está saindo do Ensino Médio com tanta deficiência na aprendizagem .

Primeiro é importante frisar que a justificativa de baixos investimentos, estatisticamente, não pode ser usada como argumento. Em um levantamento publicado pela Gazeta do Povo no ano passado, um novo relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que o Brasil já investe acima da média dos países membros da OCDE: aqui, mais de 16,2% dos recursos públicos vão para o setor, colocando a terra do verde e amarelo acima de países como Coreia do Sul, Suíça, Dinamarca e Noruega.

Agora como explicar a enorme defasagem de conteúdo com a qual os estudantes brasileiros saem atualmente do Ensino Médio? Para tais questionamentos, a Folha Extra entrevistou o renomado professor e filósofo Oswaldo Giacoia Júnior, natural de Ribeirão Claro, formado em Direito pela Universidade de São Paulo, doutor em Filosofia pela Universidade Livre de Berlin, cursou pós-doutorado na Universidade de Viena e Universidade de Lecce.

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Sobre a formação deficitária que o ensino público básico proporciona ao aluno, Giacoia afirmou ser uma questão a ser tratada de maneira cidadã. “A sociedade precisa passar a cobrar qualidade desde as bases da unidade, desde os municípios, para que a escola pública seja objeto central da preocupação, cobrando a canalização do máximo de recursos possíveis para promover ensino de excelência”, afirma.

Questionado sobre o papel fundamental do professor no aprendizado do aluno, o estudioso e professor na USP e Unicamp enfatiza que é preciso acreditar no que se faz. “A atividade docente foi tão degradada e banalizada, que os próprios profissionais que a executam tendem à ver como algo não compensatório. A carreira de professor desprestigiada e pouco atraente, faz com que alguns atuantes não reconheçam a importância da docência e a tendência desse fenômeno, é fazer dessa profissão a opção que restou, criando um efeito em cascata que traz consequências nefastas para a formação de gerações”.

 

Onde Está a Excelência?

Diferente do ensino básico e médio público, o nível de qualidade das universidades públicas brasileiras, é reconhecido mundialmente. Mas por que a base do conhecimento é tratada com tanto descaso? Sem apontar um ou outro motivo como único responsável por essa distorção, Giacoia citou uma das razões pela qual existe tanta disparidade entre os parâmetros de qualidade dentro da educação.

“Na universidade pública não há preocupação, nem tampouco remuneração referente apenas ao tempo que se passa em sala de aula, mas também a realização de pesquisas e atividades de formação, acompanhando trabalho em regimes de orientação e tutela. Isso significa que o salário do professor de universidade pública não se mede pelo tempo que ele fica em sala de aula. Agora, se você tiver um contrato de 40 aulas semanais e essas 40 horas são dentro de sala de aula, quando este professor vai realizar uma pesquisa, orientar um trabalho cientifico, se atualizar?”, explica Giacoia.

Constatando o que já foi registrado, em todos os comparativos feitos pela Folha Extra, é visível que a UENP (Universidade Estadual do Norte do Paraná) se sobressai às particulares da região, não sendo uma realidade exclusiva do Norte Pioneiro, mas o grau de excelência das universidades públicas é reluzente em todo país.

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Privilégio de alguns, a gratuidade e qualidade no ensino superior resultam em uma combinação que está ao alcance de poucos, justamente porque o ensino nas bases não oportuniza ao aluno de escola pública competir de igual para igual com estudantes que tiveram acesso à um ensino peculiar.

A conclusão é que este não é o país que o brasileiro quer. Investimentos altíssimos que não são convertidos em qualidade e castigam os sonhos de quem não pode pagar.

Professor e filósofo Oswaldo Giacoia Júnior, natural de Ribeirão Claro, explanou sobre a defasagem de conteúdo com a qual os estudantes brasileiros saem atualmente do Ensino Médio

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